Por Fabíola Oliveira
São quase oito horas da noite. Sexta-feira, início de primavera com os últimos sopros do inverno. Não está chovendo, mas o céu está carregado, escondendo as estrelas. Nesse horário mais uma turma de Jornalismo da Unisul está recebendo o tão sonhado diploma. Em outro ponto da cidade, eu – uma quase repórter – devaneio sobre o papel da minha futura profissão, enquanto aguardo ansiosa por meu entrevistado. Não sei seu nome, sua idade, de onde veio ou que rumo nossa conversa vai tomar. Não sei ao certo se vou conseguir fazer com que ele responda às minhas perguntas.
Em uma sexta-feira passada, tal como essa, minha suposta entrevistada disse que não queria falar sobre coisas que a entristeciam. Não queria, portanto, contar sua história. Respeitei. Por isso estou aqui de novo, no andar de baixo do Albergue Noturno Pousada da Paz, na cidade de Tubarão. O espaço emana uma sensação de sossego, que nem o portão de ferro da entrada, vigiado por um guarda municipal, consegue quebrar. Paredes e pisos brancos e limpos, e um cheirinho de comida caseira que vem da cozinha contribuem para o ambiente tranquilo e familiar. A rua, formada por uma vizinhança pacata do bairro São João, também coopera para a harmonia do lugar.
Paradoxo ou não, esse espaço é diariamente frequentado por, em média, 15 moradores de rua. Seres humanos sem teto, sem endereço e muitas vezes sem documento, mas com muitas histórias para contar. Pelo menos por uma uma noite, esse passa a ser o lar de cidadãos invisíveis aos olhos da sociedade. Cidadãos rotulados de sujos e desorganizados, preguiçosos e sem caráter, ignorados por outros cidadãos que nem ao menos sentam para ouvir o que eles têm a dizer. Ainda que todos sejam pobres, sem perspectiva aparente de uma vida melhor, cada um tem um motivo específico para viver assim, sem rumo, sem ter para onde voltar no final de cada dia. E estou ali para ouvir esses motivos.
Desde 1996, ano em que foi fundada, a instituição sem fins lucrativos dá assistência a pessoas migrantes, os vulgarmente chamados mendigos. Funcionando das 19 às 07 horas da manhã, o albergue oferece banho, jantar, pernoite e café da manhã a quem por lá passar. Cada indivíduo não pode permanecer mais de cinco noites no local. Mas, segundo o guarda municipal Leandro Bittencourt, algumas vezes a emoção fala mais alto que a razão, e é impossível negar abrigo a cidadãos doentes, com fome e com frio.
O cheirinho de comida caseira que pode ser sentido assim que se entra no albergue, é fruto do trabalho das 30 equipes de voluntários, formadas por 120 pessoas que se revezam diariamente para preparar o jantar. As paredes, os banheiros, e os pisos brancos e limpos da construção de dois andares, assim como as roupas de cama higienizadas, são resultado do trabalho de outros voluntários, que se comprometem em dar um dia ou uma noite de suas vidas para fazer o bem sem olhar a quem.
Aliás, sem essas pessoas que trabalham com satisfação na alma, a Pousada da Paz sequer existiria. Tirando as contas de água e luz, pagas pela prefeitura e os dois guardas cedidos pela Guarda Municipal, o restante, inclusive a costrução, é fruto do voluntariado. Isso porque, segundo a assistente social e voluntária Salete Farias, municípios com população abaixo de 250 mil habitantes – como é o caso de Tubarão, que tem pouco mais de 90 mil moradores – não são obrigados a terem políticas públicas para atender os moradores de rua.
De acordo com a assistente social da prefeitura de Tubarão, Cléria Agostinho, o município não gera população de rua. “O Brasil ainda está engatinhando sobre a destinação de políticas públicas para a população de rua. Porém, algumas já estão em evidência, como por exemplo, o Centro de Atendimento Especializado de Assistência Social para População de Rua – Creas-Pop, obrigatório para municípios com mais de 250 mil habitantes. Em tubarão, embora não se gere esse tipo de população, está em andamento um projeto de centro especializado para atender a demanda itinerante que vem de toda parte do país”, explica Cléria.
O albergue do bairro São João tem capacidade para receber 30 pessoas, e é formado por uma sala de informática, cozinha, recepção, auditório, dormitórios e almoxarifado, todos devidamente organizados, com carinho, por mãos que se alegram em poder ajudar, e ao mesmo tempo se inquietam por saber que existe sofrimento. Edgar José Farias, que fez parte do grupo que fundou a instituição e é um dos voluntários mais ativos do albergue, se envolvendo diariamente com os trabalhos do lugar, acredita que não está fazendo o bem para o próximo, e sim para ele mesmo. São servidas aproximadamente 500 refeições mensais no local. Até o final do mês de agosto deste ano foram atendidos mais de 45 mil moradores de rua.
R.D.R, 41 anos, natural da cidade de Armazém, foi um deles. E foi ele quem eu parei para escutar. Ou melhor, foi ele quem eu escolhi para ouvir. Assim que saíram do banho, cinco dos albergados que estavam lá naquela noite de sexta-feira, desceram até a sala de informática. Era ali que eu e mais quatro colegas esperávamos para a tão importante conversa. A tal sala de informática é mais um dos paradoxos do local. Acredito que os computadores que ali se encontram são pouco utilizados. Afinal 59% dos indivíduos que passam pelo albergue não chegaram a completar o sétimo ano do ensino fundamental. Minha crença não se baseia somente nessa estatística, mas também no cheiro e aspecto de produtos novos e pouco usados que pode ser percebido nos móveis e equipamentos da sala.

Abordo R.D.R com um sorriso meio trêmulo e um boa noite gaguejado. Estendo a mão – também trêmula – para lhe cumprimentar e pergunto se ele se importa em me contar um pouco de sua história. Apresento-me como estudante de jornalismo, mas não sei como lhe falar que estou fazendo um trabalho sobre exclusão. Então deixo esse detalhe fora do diálogo. Hesitante e com a voz rouca e baixa, quase inaudível na salinha onde mais oito pessoas conversam paralelamente, ele me diz, acompanhado de um meneio de cabeça, que podemos, sim, conversar. Puxa uma cadeira e senta de frente para mim. A calça de moletom desgastada e furada e a camiseta puída que ele usa naquele dia não chamam tanto a minha atenção quanto os pés descalços, calejados e inchados. Pergunto-me quantos quilômetros aqueles pés já percorreram.
Ele me diz depois, durante nossa conversa, que pode ter durado 15 minutos ou uma hora, que aqueles pés já andaram por Blumenau, Rio do Sul, Criciúma, Porto Alegre, cidades do Paraná e tantos outros lugares que sua memória já não recorda mais. A aparência descuidada e a expressão displicente daquele homem franzino, de pele morena, castigada pelo sol, bem como seu olhar cansado e mãos maltratadas, revelam o quão grande foi, e ainda vai ser, o caminho percorrido por ele. Seu próximo destino, na manhã seguinte, seria a cidade de Ituporanga, a Capital Nacional da Cebola, com pouco mais de 20 mil habitantes.
“O trabalho é a coisa mais boa do mundo”, diz ele. “Por isso vou pra lá (Ituporanga) para trabalhar na roça que é o que eu sei fazer”. Depois disso, ele me fala que quer ir para o interior para ficar longe das coisas ruins da cidade. Descubro, quase no fim da nossa conversa, que tais coisas ruins são o álcool, a maconha e o crack, drogas que já usou, mas que, segundo ele, há dois anos não usa mais. Depois dessa revelação passo a entender o por que de um homem que acha o trabalho “a coisa mais boa do mundo”, andar assim, sem destino, nem bens, muito menos família e amigos.
Quando pergunto à assistente social Cléria, responsável pelo atendimento a essas pessoas no município de Tubarão, qual o principal motivo que as levam a viverem assim, nas ruas, ela me responde de forma enfática. “Já existe pesquisa nacional que afirma que a principal causa, 90% são as drogas. Afirmo que, através do meu atendimento, de fato, as pessoas estão em situação de rua devido à dependência química, incluindo o alcoolismo.”
A mãe de R.D.R morreu quando este tinha apenas 5 anos. Depois disso o pai se casou com outra mulher. Aos 16 anos ele saiu de casa, desde então nunca teve um lugar fixo, nunca casou e não teve filhos. Seu pai já faleceu há dez anos, vítima de um câncer no pulmão decorrente do vício em cigarro. “Quando trabalho tenho onde ficar, senão ando por aí”, desabafa R.D.R, que mal sabe assinar o próprio nome. No ano de 2004, o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome fez a primeira tentativa de contagem do número de indivíduos que vivem nas ruas. Setenta e seis cidades com mais de 300 mil habitantes receberam questionários para a contagem. Dessas, 53 responderam e 22 informaram ser impossível determinar o número de cidadãos sem teto. Ainda não existe um censo da população em situação de rua no país.
A clareza não era a principal virtude do meu entrevistado. Por isso, várias declarações ficaram sem um fim. Talvez por minha falta de experiência, ou quem sabe pela dificuldade dele em falar sobre seus próprios fantasmas. A quase todo momento ele dispistava minhas perguntas comentando assuntos cotidianos. Quando respondia, as declarações eram breves. Falou por exemplo que nunca frequentou a escola, e que aprendeu a ser bom e a ter educação nas ruas. “O pouco que sei foi o mundo que me ensinou”, disparou ele. Com orgulho e com um meio sorriso contou que “não devia nada na lei”, que não tinha nenhuma ocorrência registrada em seu nome e que nunca fez mal a ninguém, só a ele mesmo.
De acordo com os dados colhidos nos registros do Albergue Noturno Pousada da Paz, assim como R.D.R, 72% dos albergados são solteiros, 70,9% trabalham, e 62% declaram ser viciados em álcool ou em algum outro tipo de droga. A grande maioria, 91% é do sexo masculino. “O albergue representa muito na vida dessas pessoas e, tem representado apoio indescritível no meu trabalho inclusive. A maior parte das pessoas atendidas na assistência social de Tubarão são trecheiras (circulam pelo estado e país) e, deixam nos seus relatos grandes elogios ao albergue, principalmente, relativo ao atendimento com muito calor humano”, elogia Cléria. Os albergues, como pode se ver, são essenciais para responder às necessidades imediatas desses cidadãos. Mas depois de matar a fome, tomar um banho e dormir eles voltam às ruas. Para a recuperação desses indivíduos, é preciso que hajam políticas públicas que atendam não somente às suas necessidades físicas, mas também psíquicas.
Em momento algum lágrimas rolaram daqueles olhos cansados, como se aquela vida, aqueles sonhos perdidos não fizessem parte deles. É como se fosse a história de uma outra pessoa. Indiferente, R.D.R me contou que no momento não possuía nenhum documento. “Perdi meus documentos um dia desses, eu estava bêbado.” Perguntei o que ele pensava a respeito da vida que levava. “Considero sofrimento isso que eu estou passando, mas tem gente que sofre mais. Agradeço a Deus por eu ter saúde”, argumentou. Ele se referia ao fato de conseguir andar vários quilômetros por dia, enquanto alguns colegas trecheiros se cansavam fácil.
No ano de 1933, o escritor George Orwell publicou o livro Na pior em Paris e Londres. Na obra, ele relata os anos de 1928 a 1930, época em que viveu como mendigo nas ruas francesas e inglesas. Seu objetivo era conhecer de perto os seres humanos e retratar a forma de vida daquelas pessoas que a sociedade fingia não saber que existiam. Da mesma forma, no início do século XX Jack London viveu por 86 dias como mendigo em Londres. Da sua experiência resultou o livro O povo do abismo, que relata as misérias das pessoas que eram consideradas ineficientes pelo sistema industrial. Em maio deste ano, o programa A Liga da rede Bandeirantes também colocou seus repórteres nas ruas, para sentirem na pele as dificuldades de quem não tem um teto para se abrigar.
Todos essas experiências tiveram como objetivo tentar compreender o que se passa na cabeça de pessoas que vivem às margens da sociedade, ocultadas pela sombra de um sistema onde os bens materiais estão acima da vida humana. Este também era o meu objetivo ao conversar com o personagem dessa história. Segundo a assistente social Cléria, a maioria dessas pessoas acreditam não ser possível uma mudança em suas vidas. A psicóloga Sheila Ávila Selau aponta o abandono como causa dessa apatia. “Este desprezo que recebem da sociedade e da própria família, fazem com que percam as esperanças numa possível melhora, alegando então que não tem mais jeito, esquecendo de suas capacidades como ser humano”, afirma.
Nos segundos finais de nossa conversa, antes de sair para o jantar e me responder que preferia não fazer a foto que ilustraria essa reportagem, R.D.R esperançoso declarou: “o remédio está em nós mesmos, é só a gente querer mudar”. Antes disso, afirmou que o mundo foi a escola dele. Concluí que o mundo não é uma escola tão justa assim. E se não consegui compreender as suas ações, ou o que se passa em sua cabeça, ao menos me ficou claro que somos todos engrenagens da sociedade. Qualquer um de nós está sujeito a ser descartado, assim como se rejeita uma máquina que não funciona mais.
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Narrativa produzida para o Trabalho Integrado do Curso de Comunicação Social – Unisul – 2010/2
Disciplina: Narrativas Jornalísticas
Tema: Exclusão Social
Orientadora: Darlete Cardoso
Tags:albergados, albergue, cidadãos invisíveis, CREAS, excluídos, Exclusão, exclusão social, Fabíola Oliveira, jornalismo social, mendigos, População de Rua, problemas urbanos, sem teto, sociedade, Tubarão