Embalado pela música

12 dez

Por Fabíola Oliveira

“Cara engraçado, meio doido, corajoso, coração mole e fala mais que o Obama!”. Tenho que concordar com Paulo Domingos, o companheiro de banda e melhor amigo de Leandro Benincá, ou Lê Benincá, como a galera costuma chamá-lo. Pelo menos no que diz respeito a “falar mais que o Obama”. Entrevistei Leandro pela primeira vez minutos antes da apresentação da banda UmSeteUns, na qual ele é guitarrista e precursor, em um acústico no Shopping Della em Criciúma. Mesmo nos fundos de um restaurante, apertado e quente, que servia de camarim para a banda naquele fim de tarde, e mesmo sem me conhecer, ele estava sorridente e falante.

Quando vi Leandro usando um tênis All Star surrado nos pés, com um piercing na orelha, o cabelo moicano e a forma despojada e espontânea como conversava, não podia imaginar que ele já fez parte do mundo dos negócios. “Sou formado em Administração de Empresas, habilitado em Marketing, fiz MBA nos Estados Unidos e abandonei uma pós-graduação em Gestão de Pessoas quando descobri que meu negócio mesmo era a música”, conta ele.

A paixão pela música veio de berço. A mãe era pianista e o pai fã dos Beatles, Rolling Stones e Bee Gees. Aos 12 anos ele começou a fazer aulas de piano, aos 14 violão e aos 17 teve o encontro fatal com uma guitarra elétrica. Aos 20 decidiu que queria montar uma banda. Com 24 anos, ele tinha certeza que queria ser músico.

“Em 2006, a ideia de ter uma banda já era bem mais madura na minha cabeça, e era algo que realmente me fazia falta. Mesmo trabalhando muito (na época eu era gerente de uma indústria, e viajava de 10 a 15 dias por mês) e conciliando meu tempo com a faculdade, eu realmente queria aquilo! E a banda foi meu pedido de Natal. E minha promessa de ano-novo. Cumprido! Em maio de 2007 estava formado um embrião do que viria a ser a UmSeteUns”, relembra.

Vinte e cinco anos antes, às 17 horas e cinco minutos do dia três de maio de 1982, Leandro era apenas um bebê, que nascia, por acaso, no Hospital São João Batista em Criciúma. Por acaso porque seus pais moravam, na época, em São Paulo. A mãe, estava passando uns dias na casa da avó de Leandro quando ele nasceu. Quando tinha 15 anos ele e sua família deixaram a terra da garoa e voltaram a morar em sua cidade natal, no bairro São Simão onde estão até hoje.

Além da música, outra paixão de Lê – não tão intensa – é o esporte. Já chegou a treinar natação seis horas por dia, e a competir por alguns anos na modalidade. Passou por academias de karatê, judô, capoeira, aikido, taekwondo, boxe e jiujitsu. Em São Paulo, participou e ganhou campeonatos de bodyboard.

Filho de Dino José e de Maria Helena, e irmão de Rodrigo, aos 14 anos, Leandro deciciu que era a hora de começar a trabalhar. Os pais ficaram peocupados, achando que poderia atrapalhar os estudos do garoto. Mas ele insistiu até que coseguiu emprego em uma vídeo locadora. “Cresci com essa idéia de que ‘o trabalho engrandesce’ na cabeça, e esse é um dos meus lemas até hoje. Todo mundo me chama de ‘workaholic’”, comenta.

Hoje, Leandro só trabalha com aquilo que lhe dá prazer. Em casa, montou um estúdio de gravação, onde produz, junto com Paulo, as músicas da banda e de outros artistas. Define sua profissão como músico, e ‘nas horas vagas’ professor de inglês. A banda UmSeteUns tem quase quatro anos de estrada. Nesse tempo já aconteceu de passarem todo o equipamento para o palco por um elevador de comida; ou tocarem em um bar na semana do Natal, para oito pessoas, incluindo as bargirls, os seguranças e as namoradas da banda.

Mas nem tudo são espinhos no caminho de uma banda independente. Hoje, os rapazes já têm uma música, de autoria de Leandro, tocando em uma rádio da região, estão gravando o primeiro CD e fazendo shows. “O que mais me fez feliz neste ano foi a descoberta de fãs, que a gente nunca viu na vida, em Minas Gerais, no Rio Grande do Sul e em Portugal! Temos até fã-clube”, comemora Leandro.

A infância e a adolescência foram tranquilas. Passou pelos colégios Degrau e Fortec, em Praia Grande, São Paulo, e pelo Lapagesse em Criciúma. A forte estrutura familiar, os exemplos de conduta e caráter e o apoio dos pais contribuíram para sua formação. “Meu pai é um amigão, me apoia de verdade em tudo o que eu faço, vira madrugadas pra ajudar nos nossos shows, constroi coisas pra gente, nosso estúdio foi todo feito por mim e por ele, e minha mãe é ‘fãzona’ da banda. Vive twittando nossas músicas, postando comentários na internet e pedindo nosso som nas rádios”, comenta.

E é ensinando pelo exemplo e mostrando que a família é a base de tudo, que Leandro educa o filho Lucas, o Kaká, de 10 anos. Pai solteiro, ele conta que a paternidade, no início, foi um susto. Já estava separado da mãe de Lucas, com quem namorou por cinco ou seis meses, quando descobriu que ia ser pai. “Passado o susto, a paternidade só me trouxe coisas boas, e o Kaká é hoje um amigão. Cada dia mais parceiro, mais conectado a mim”, revela. Nos shows da UmSeteUns, Lucas é figura sempre presente, seja na passagem de som ou agitando a apresentação da banda. Filho de peixe, peixinho é.

Leandro Benincá, 28 anos, é a prova viva de que o rock não é feito só de sexo e drogas como costumam falar. Dedicação, talento, paixão e muito, mas muito trabalho são necessários para fazer o som que embala e muda a vida de muita gente. “Quando eu componho uma música e vejo uma pessoa cantando e me dizendo: ‘Pô, parece que tu tava falando da minha vida’ é uma realização para mim. Isso é música para mim: mudar a vida de alguém, mesmo que por 3 minutos, pensar em coisas melhores”, desabafa.

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Perfil produzido para o Curso de Comunicação Social – Unisul – 2010/2

Disciplina: Narrativas Jornalísticas

Professor (a) Orientador (a): Darlete Cardoso

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3 Respostas para “Embalado pela música”

  1. Leandro 12/12/2010 às 14:19 #

    Já falei tudo isso nos e-mails e nas respostas do Twitter, mas faço questão de deixar registrado aqui.
    Você me emocionou DEMAIS com o texto, da forma como colocou e as palavras que usou.
    Minha história em texto. Bom demais!
    MUITO obrigado, Fabi!!

  2. Ju Dacoregio 13/12/2010 às 19:13 #

    Muito bom o perfil. Parabéns Fabíola!

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